Não possuo o talento da minha avó em se penalizar pelos outros. Poucas foram as vezes que, ao me deparar com um mendigo estendido na calçada, eu pude sentir algum remorso pelo meu estômago satisfeito, pelo excesso de amor, educação e conforto que eu esbanjei a minha vida inteira.
Durante anos da minha infância eu lutei contra o meu estômago constantemente embrulhado em uma tentativa desesperada de me salvar do pediatra, da interminável enxeção de saco dos meus avós pelo meu único quilo abaixo do ideal. Quem sabe ainda, em um exemplo mais recente, a horrenda sensação de me obrigar a comer antes de sair no sábado à noite sem querer ver toda a cerveja consumida voltando na privada do banheiro do bar.
O ponto é: a fome não me é familiar ou palpável, quanto mais o incômodo dela resultante.
Em contrapartida a minha indiferença aos necessitados, o mal estar resultante de qualquer contato com violência animal, sem entrar em conceitos mais específicos, é, segundo terceiros, uma afronta a minha espécie e a toda a estrutura da cadeia alimentar.
Felizmente ou não, minha compaixão limita-se ao que me é tangível, e, da mesma forma com que eu me penalizo ao ver noticiado os casos de adolescentes que se tornaram viciados químicos, sou dilacerada por todo e qualquer tipo de agressão a qualquer animal que não humano.
O contato contínuo com alucinógenos e estimulantes me pôs de cara com a impotência que se sente quando o seu amigo está a beira do abismo do vício e se desesperar é a última coisa que vai solucionar o caso. Quando eu leio esse tipo de história, consigo visualizar o desespero da minha própria mãe se eu fosse o último caso de overdose da Zona Sul. E quando ela se perguntasse onde diabos errou, a resposta seria simples: no mesmo ponto onde acertou. Minha educação não me trouxe nada a mais ou a menos do que a de metade dos viciados de colégios particulares, eu poderia muito bem estar cheirando todo fim de semana como a pobre coitada que eu nunca fui.
É triste e eu posso tocar, por isso me toca de volta.
É claro que a maior parte dos adolescentes mais críticos e todo professor de sociologia geneticamente de esquerda vai me difamar até a oitava geração, afinal qualquer menino de classe média tem tudo que poderia pedir e nenhum motivo para fazer a porra de uma burrada desse tamanho e, aliás, eu deveria queimar na fogueira por não me penalizar pela miséria. É culpa de gente como eu, que acha que todo mundo tem a mesma vidinha privilegiada, que o mundo ta desse jeito!, que a sociedade é uma merda, é por isso que existe tanta concentração de renda. Gente como eu que não consegue ver mais do que o próprio umbigo. Não preciso dizer que os esquerdistas me deixam de cabelo em pé. E olha que eu nem tenho tanto cabelo assim.
Não, eu não vou me sentir um monstro por não sentir dor pela miséria. Não partilho daquele submedo de que, se um dia uma desgraça se acometer sobre você, o desespero não vai vir e de repente, você se tornou um insensível digno de repúdio.
Francamente, esse tipo de pensamento me deixa abismada com todo o estardalhaço em volta daquelas seitas como o opus dei (e eu não tenho certeza se o opus dei é de fato uma seita). Qual é a surpresa?! A sociedade tem uma necessidade de se fazer mártir incompreensível.
Aliás, era nessa palavra que eu pretendia chegar; incompreensível. A violência animal me dilacera justamente por não ser entendida. O que sabe um cachorro de motivos quando um grupo de vândalos adolescentes o incendeia? Que conclusão um ser irracional pode ter a respeito da estupidez, da violência gratuita? Tenho absoluta certeza de que o meu filhote de tartaruga nunca havia refletido sobre “a palavra explicação não ter sentido algum”, citando Pessoa, quando levou uma chinelada do meu primo que, no auge dos três anos, pensou ser uma barata.
O que me apavora não é a dor ou a crueldade, que me são tão tangíveis quanto à fome, possuo absoluto horror ao incompreensível e isso inclui desde a utilização do Binômio de Newton (perdoem-me a ignorância) até as questões existenciais mais complexas. Salvo que a minha consciência pode-se conformar com a ausência de sentido, a subjetividade da verdade e a inconsistência do que é real, a do gato da minha vizinha não.
Portanto, perdoem-me os céticos em relação a minha sanidade sentimental e meus instintos de preservação da espécie, mas não há nada mais humano do que o temor ao desconhecido, ao que não é compreendido ou familiar, e a compaixão pelo que lhe é semelhante. Afinal, todo vegetariano radical que joga uma porrada de vídeos sensacionalistas com vacas sendo abatidas na internet, não sente peninha da rúcula. E não sente porque todo animal que utilizamos como alimento nos é muito mais próximo – e similar - do que qualquer vegetal, verdura ou fruta, apesar de todos nós compartilharmos da vida.
O que incomoda não é “nós não precisamos matar, podemos sobreviver sem carne”, e sim que o guincho do porco quando percebe que tudo está acabado, campeão, bem poderia ser o seu. A alface não tem cordas vocais e eu aposto que você não faz fotossíntese.
Mas eu queria voltar ao horror instintivo a tudo que nos é incompreensível e a declaração que um amigo fez a meu respeito:
“A Thais é uma amiga ótima, mas você nunca vai querer tê-la como inimiga.”
Eu realmente fui uma pré adolescente cruel com todo mundo que me incomodou. Mas se fiz meus coleguinhas de classe chorarem, infernizei a vida das meninas da série abaixo colocando pó de mico nos fundilhos das calças delas e enfiei a porrada em um garoto em público, foi porque fui provocada.
É claro que eu tive um retorno prazeroso que me levou ao exagero na minha resposta as provocações que me fizeram. De fato, eu não me incomodava que todos aqueles bodes com quem eu estudava achassem que eu tinha um caso com a minha melhor amiga, mas a mãe dela sim, e eu definitivamente não ia deixar que ela fosse prejudicada porque um moleque de treze anos estava inconformado por ter sido trocado por outro cara cinco anos mais velho e com um piercing da Hello Kitty no umbigo.
Como eu citei anteriormente em outra discussão, se as leis de Newton tivessem alguma aplicabilidade afora a física, o Japão não teria servido de cobaia para duas bombas atômicas por atacar Pearl Harbor.
Segundo a teoria do caos, o bater de asas de uma borboleta pode afetar toda uma cadeia natural e provocar um tufão do outro lado do mundo. O que me leva a concluir que, se alguém é estúpido o suficiente para colocar a cara a tapa sem ter absoluta certeza de que vai sustentar a porrada, então ela foi bem dada. E eu não tenho dúvidas acerca das más intenções dos comentários que fizeram a respeito da minha sexualidade. Apesar de admitir que talvez a menina gorducha e complexada que eu apelidei de grávida me achasse tão lésbica quanto os bebês alterados pós-Hiroshima eram culpados pelo orgulho japonês que se recusou a entregar os pontos.
De qualquer forma, não é como se eu saísse por aí distribuindo pó de mico em todo mundo que eu não vou com a cara. Felizmente, minha pré- adolescência terminou faz alguns anos, assim como meu gosto sádico por infernizar a vida dos meus colegas de classe e me temer como inimiga por causa disso beira o ridículo.
Fatalmente, a única coisa que eu fiz nos últimos quatro anos a respeito daqueles que eu não gostava foi expressar a minha insatisfação da forma mais clara o possível. Se o meu humor ácido assusta, desculpem, mas eu não sabia que sinceridade estava tão fora de moda assim para que todo mundo ficasse tão perdido toda vez que eu faço um comentário estúpido.
O que me parece é que todo esse temor vem de uma incompreensão a respeito das minhas atitudes. Céus!, será possível que o repúdio é tão danoso assim?! Na maior parte das vezes eu tenho senso de humor o suficiente para suportar grosserias a respeito da minha personalidade e não imagino que seja uma característica que exija tanto esforço assim para ser adquirida.
O ponto é: eu sou muito bem resolvida com quem sou. E bem resolvida pode soar pretensioso e o caralho a quatro, mas a verdade é que ninguém com um mínimo de amor próprio pode se ofender a tal ponto com algumas verdades a respeito de si mesmo.
Nos últimos meses, eu venho nutrido uma antipatia especial por uma menina. Ela sofre de baixa auto-estima, depressão, carência e passa a maior parte do tempo disputando umas migalhas emocionais que a tornam mesquinha. A falta de estima é tão grande que, depois de ter levado um fora do ex namorado, a única coisa que a pobre pode fazer foi abrir as pernas para metade dos homens que participavam do meu grupo de amigos. E entre banheiros do playground e rapazes comprometidos, a coitada ainda tenta se convencer de que ela está muito bem pós-termino.
Mas é claro que ele não terminou com ela porque não nutria qualquer sentimento próximo de paixão por ela, mas porque eu devo ter influenciado as decisões dele! E depois de semanas ouvindo comentários a meu respeito, eu perdi a paciência.
Se algum dia eu quisesse ter tido qualquer tipo de relacionamento com esse meu amigo, eu teria tido. Ele estava a disposição quando nos conhecemos e eu definitivamente não sou baixa o suficiente para esperar que ele arrumasse uma namorada para interferir.
Enfim, a lista é longa e eu estou cansando de falar, mas o meu desprezo por ela é enorme e, é claro, a presença em qualquer ambiente é carregada pelo sentimento auto destrutivo dela e, definitivamente, não é saudável.
Eu engoli muito os mais próximos me dizendo que a coitada tinha levado um pé na bunda e estava transtornada, que pisar em cima dela era senão um golpe covarde. Portanto, eu vos digo que ela só é coitada porque se sente assim, eu fui tão jogada para escanteio quanto ela e nem por isso resolvi interferir em relacionamentos alheios abrindo a porcaria das minhas pernas. E, protegendo-a dessa forma, só vão gerar mais complexo e sustentar ainda mais a imagem miserável que ela faz de si mesma. Vos digo que chega e, se vocês se preocupam tanto assim com os sentimentos dela, que a levem para longe de mim. Porque não sou eu que fico transtornada com a opinião alheia a meu respeito.
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